26 julho 2013
A Árvore da Vida
Quando digo que o filme não é para qualquer um não estou insinuando que foi feito para pessoas inteligentes ou cultas. É preciso ser sensível, ter a capacidade de mergulhar nas emoções e nas sensações que o filme provoca para se entender, ou melhor, para se perceber o filme. E ai está o problema: a maioria das pessoas está acostumada com roteiros que explicam tudo em seus diálogos, com início, meio e fim, de modo que nenhum mistério fica sem explicação. Quem entrou no cimema buscando diálogos explicativos e uma história convencional certamente se decepcionou.
O filme de Malick fala sobre a Vida, mas de seu modo particular: pelo que se vê, e o que não se vê; pelo que se ouve, e o que não se ouve; pela emoção que se manifesta nas cenas e nos impactam; ou seja, por todos os meios a disposição de um filme, exceto pelos diálogos elucidativos. O filme não deve ser assistido com a razão, mas com o coração.
Malick, filósofo de formação, quiz realizar um tratado sobre a Vida, mas se quisesse usar argumentos e lógica para isso deveria ter escrito um livro... Conhecedor de todo o potencial de comunicação que o cinema tem, realizou seu tratado filosófico com cores, sons, silêncios, música, imagens e cenas. Se fosse músico, teria feito seu tratado através de uma bela sinfonia. Como é cineasta, realizou um lindo filme.
Em meio a todas as formas em que a Vida se manifesta em nosso planeta desde suas origens, a história de uma família que sofre com a morte de um filho é o fio condutor do filme. Mas essa família não é o tema do filme, e sim A Vida, esse fenômeno maravilhoso que na Terra levou ao desenvolvimento de seres que olham para si mesmos e para o Cosmos na busca de um sentido, e o descobrem, não na ciência ou na filosofia, mas na arte e na contemplação.
"A Árvore da Vida" (The Tree of Life), de 2011, é escrito e dirigido por Terrence Malick ("Além da Linha Vermelha"), com música de Alexandre Desplat ("O discurso do Rei", "Argo") e interpretação de Brad Pitt, Sean Penn e Jessica Chastain.
25 julho 2013
A evolução da Ética - 2
É certo a experiência subjetiva e de cada um de nós, a vivência de nosso mundo mental, nos convence de que somos autoconscientes, mas só podemos estar certos de que o outro também é pela identificação de que todos fazemos parte de uma mesma espécie animal, a espécie humana, e que, em tese, o que um humano percebe voltando-se para seu mundo interior os outros também percebem ao olharem para si mesmos. Ou seja: embora só tenha certeza da minha própria consciência e capacidade de sentir amor e ódio, dor e prazer, suponho que todos os outros seres humanos também são capazes do mesmo. E essa conclusão, como não poderia ser diferente, tem sido repetidamente corroborada e confirmada pelas pesquisas nas áreas médicas, neurológicas, psicológicas e antropológicas.
Se todos sofrem com a dor, não é correto infringir ao outro uma dor que não quereríamos para nós mesmos. Do mesmo modo, se todos temos a mesma capacidade de sentir prazer, deveríamos nos preocupar em garantir que todos tenham as mesmas oportunidades de conquistar as satisfações que desejamos para nós mesmos. No campo da Ética, esta é uma das bases da solidariedade e dos direitos humanos básicos e universais. Em outras palavras, igualdade de oportunidades e direitos básicos universais são o fundamento sobre o qual pode se desenvolver a solidariedade humana.
Com efeito, direito à vida, direito a uma existência digna, proteção contra violência e proteção contra exploração degradante é o mínimo que se espera da solidariedade para com o outro, visto que é este autoconsciente e capaz de perceber dor e prazer como nós mesmos. Mas, e se eu lhe disser que esse outro pode não ser humano? Ele continua a merecer solidariedade? Mais ainda: e se um cientista lhe provar que outros animais são capazes das mesmas experiências subjetivas? E se ficar comprovado que outros animais também têm consciência? E se descobrirmos que a experiência da autoconsciência não é uma exclusividade do animal humano, como muitos ainda imaginam, mas uma realidade para muitos outros animais, tais como mamíferos e aves?
Como argumentei em artigo anterior, a Ética evolui na história. Não necessariamente para um sentido determinado, não necessariamente do pior para o melhor, ou do selvagem para o civilizado, mas certamente do menos complexo ao mais complexo, já que a experiência humana se acumula na história. Em vista disso, considerando que a nossa capacidade de nos identificarmos com o sofrimento ou com a alegria do outro nos conduziu, ao longo dos séculos, à compreensão de que o outro humano merece igualdade de direitos e oportunidades, somos obrigados agora a encarar um novo desafio: o de nos posicionarmos diante do outro não-humano, que de modo semelhante a nós também tem consciência e também é capaz de experimentar dor e prazer, sentir amor ou ódio.
Em 7 de julho de 2012, numa conferência em Cambridge, neurocientistas de todo o mundo assinaram um manifesto afirmando que todos os mamíferos, aves e outras criaturas, incluindo polvos, têm consciência. Leia a reportagem da revista Veja sobre o assunto e o documento original na íntegra (em inglês) para compreender melhor o que esses cientistas estão afirmando.
Em resumo, o que se descobriu é que as estruturas neuronais envolvolvidas na manifestação da consciência, da percepção de dor e prazer, das emoções básicas e até mesmo do sono REM também podem ser encontradas em muitos outros animais, como mamíferos e aves. Ao contrário do que antes se pensava, os cérebros desses animais são capazes de funcionar de modo similar ao humano e não foi encontrado nenhum motivo para se crer que esses animais não experimentam algo semelhante ao que chamamos de consciência.
O texto declara: “The absence of a neocortex does not appear to preclude an organism from experiencing affective states. Convergent evidence indicates that non-human animals have the neuroanatomical, neurochemical, and neurophysiological substrates of conscious states along with the capacity to exhibit intentional behaviors. Consequently, the weight of evidence indicates that humans are not unique in possessing the neurological substrates that generate consciousness. Non-human animals, including all mammals and birds, and many other creatures, including octopuses, also possess these neurological substrates.” (A ausência de um neocórtex não parece impedir um organismo de experimentar estados afetivos. Evidências convergentes indicam que os animais não-humanos têm a neuroanatomia, neuroquímica e substratos neurofisiológicos de estados de consciência, juntamente com a capacidade de exibir comportamentos intencionais. Consequentemente, o peso da evidência indica que os humanos não são únicos em possuir os substratos neurológicos que geram consciência. Os animais não-humanos, incluindo todos os mamíferos e aves, e muitas outras criaturas, incluindo polvos, também possuem estes substratos neurológicos.)Somos, portanto, instigados agora a repensar os limites da Ética e a estender a solidariedade a outros que, embora não sejam humanos, são, como nós, animais com uma rica vida mental. Provavelmente não idêntica à nossa, mas certamente complexa e consciente, capaz dos mesmos sentimentos, emoções, medos, dores, prazeres e, porque não diser, desejos básicos.
24 abril 2013
Congresso terá que aprovar decisões do STF sobre inconstitucionalidade de emendas e de súmulas vinculantes
Congresso põe em votação qualquer emenda (in)constitucional que beneficie o governo ou os companheiros; Rolo compressor do governo aprova a emenda (in)constitucional; Oposição recorre ao judiciário para analisar se a emenda é inconstitucional; O judiciário, que, ao contrário do Congresso, é feito de juristas, julga a emenda como inconstitucional; julgamento volta ao Congresso e os companheiros, dando uma "banana" para o povo, para a democracia e para a separação de poderes, desfaz a decisão judical e restaura a emenda (in)constitucional. E junte-se a isso a nova emenda constitucional que proibe o ministério público de investigar casos de corrupção, que agora só podem ser investigados pela polícia federal (que é subordinada ao Ministério da Justiça)...
Vão dizer: "Não é bem assim. Quando Congresso e Judiciárionão não se entenderem sobre a sentença de inconstitucionalidade, deverá haver plebicito, o que é democrático."
Como que é? Isso é ridículo! Primeiro porque é uma interferência na independência do Judiciário (uma sentença deveria ser soberana). Segundo porque sabemos muito bem que com a máquina de propaganda e o gigantesco cadastro de "bolsa-compra-de-votos", quer dizer, desculpe, "bolsa-familia" que o governo tem, não dá pra fazer plebicito democrático. E terceiro: com o aumento do quorum mínimo para a votação no STF da inconstitucionalidade de uma emenda, fica quase impossível aprovar qualquer coisa que contrarie o governo, graças aos poucos ministros do STF mais alinhados com o governo que com a Jurisprudência...
Agora ninguém segura esse Congresso e o Governo! Ainda bem que temos o Ministério Público para nos defender... Como é que é? Não temos mais? O Ministério Público não pode mais investigar corrupção? Só a Polícia Federal pode, quando o Ministro da Justiça autorizar? É... Dançamos!
Cada vez mais fica claro que o Brasil caminha para uma Venezuelização. Quem viver, verá!
Detalhe: a comissão que aprovou essa aberração, a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), é composta pelos condenados pelo STF no caso do Mensalão, como o José Genoino e o João Paulo Cunha. Será uma vingança? Será?
Leia a notícia
08 março 2013
Onde há fumaça, há "fuego"....
Logo depois do anúncio da morte do presidente Hugo Chavez, o ministro da Defesa da Venezuela, Diego Molero, provocou a reação da oposição ao afirmar que as Forças Armadas do País vão trabalhar para eleger o vice-presidente Nicolás Maduro, atual presidente interino, como presidente da Venezuela.
O pronunciamento foi feito na TV oficial Venezuelana. “Agora mais que nunca o povo venezuelano e a Força Armada Nacional Bolivariana devem estar unidos para chegar ao objetivo ou à missão que ele [Chávez] nos encomendou, que é levar nosso atual vice-presidente da República, Nicolás Maduro, a ser o próximo presidente eleito de todos os venezuelanos”, disse o almirante Molero.
Até que se realizem novas eleições, o presidente interino Maduro deve assumir a presidência, devendo, portanto, fazer um juramento perante o Congresso Nacional. Hoje, 08 de março, o Presidente do Congresso anunciou que o juramento será feito numa sessão extraordinária, não no Congresso, sede do Poder Legislativo Nacional, mas na Academia Militar, casa sob jurisdição do Ministério da Defesa. Onde há fumaça, há "fuego"....
Sofismo e Democracia Venezuelana
Não se tratavam de pessoas que não conhecessem bem a lógica e a filosofia. Ao contrário, sofistas eram verdadeiros sábios e habilidosos filósofos que, para benefício próprio ou de seus educandos, se utilizavam de suas grandes habilidades retóricas para convencer interlocutores menos treinados. Técnica essencial para um político que queria fazer uma carreira de sucesso.
O que mais incomodava Platão (que, assim como seu discípulo Aristóteles, primava pela correta observação das regras da lógica) era a tese defendida pelos sofistas segundo a qual não há diferença significativa entre o verossímil (o que não é verdade, mas aparenta ser) e o verdadeiro. Para o sofista, se um argumento aparenta ser verdadeiro, se pode ser fundamentado por uma boa retórica, é tão verdadeiro quanto qualquer outro que possa do mesmo jeito ser sustentado. O sofista é a expressão filosófica do político inescrupuloso.
Uma das artimanhas usadas pela técnica sofística é o uso de uma lógica deformada. O sofista e, em especial, o político habilidoso que usam esse artifício sabem bem onde querem chegar, pois, para atingir seus objetivos e convencer o interlocutor, lançam mão de um raciocínio falho que normalmente rejeitariam se ouvissem de outros.
Um exemplo excelente de sofisma é o raciocínio usado esta semana pelo Ministro das Relações Exteriores Antonio Patriota, eficiente porta-voz do Governo Federal quando o assunto é justificar os apoios que o Governo do PT presta a algumas das mais escandalosas ditaduras do mundo ("hay oposición a los Estados Unidos, soy a favor"), para chegar à conclusão de que a Venezuela de Hugo Chavez é uma democracia: "há uma oposição organizada lá, o que mostra que a Venezuela é uma democracia". Uma pérola do sofismo.
Sabemos bem que não há democracia sem pluralidade partidária e liberdade política. Mas porque esse meu raciocínio é verdadeiro? Simplesmente porque "democracia" é, como diz a palavra, o "governo do povo" e o povo não é homogêneo. Ou seja, para ser governo de todo o povo, a democracia precisa providenciar liberdade de expressão para todas as opiniões, com liberdade e igualdade. Há um claro consenso de que na década de 70 o Brasil não vivia uma democracia porque, embora houvesse uma oposição organizada (existia um partido de oposição chamado MDB) e houvesse eleições, era óbvia a perseguição que o governo federal e a cúpula militar fazia contra qualquer um que se tornasse um problema. Pessoas eram presas, opositores eram exilados, empresas eram fechadas, jornais e outros órgãos de imprensa eram censurados, artistas eram vigiados. Isso não é democracia...
Nosso inteligente Ministro sabe bem que a simples existência de um partido de oposição e de eleições não faziam do Brasil uma democracia na época militar. Mas parece não lembrar disso quando diz que a Venezuela, que fecha emissoras de televisão e oprime opositores, é uma democracia. Só "parece" esquecer, pois nosso sábio ministro sabe bem que o bom sofismo é o que "parece mas não é" verdade.
10 dezembro 2012
A evolução da Ética
Cabe aqui uma breve observação sobre o significado que aqui dou à palavra evolução. Os dicionários costumam relacionar evolução à idéia de mudança e movimento. E geralmente fazem isso associando a essa mudança ou movimento, (a) ou um caráter meramente transformativo, (b) ou um caráter ordinal. Neste último caso, a mudança ou movimento ocorre numa sucessão que contém em si uma certa ordem simbólica, como num caminho do menos para o mais, do inferior para o superior, do bárbaro para o civilizado. Não é assim que uso a palavra evolução. Em meu texto, evolução é simplesmente como definida no item 'a': mudança ou movimento num processo sem ordem além de causas e efeitos.
Dito isso, ressalto que não pretendo dizer que a cultura e a ética hoje é melhor ou superior às antigas, mas simplesmente diferentes, onde uma ou mais é posterior à outra ou outras, de forma que as mais recentes, em alguma medida, dependem das antigas e podem, em alguns aspectos, por causa dessa sucessão e do acúmulo de experiências, ser mais complexas. Muitos dirão que a complexidade e o acúmulo de experiências é uma coisa boa e que, no fim das contas, evolução significaria, sim, um melhoramento. Mas reafirmo que a evolução que gera um aparente melhoramento não é senão uma espécie no gênero evoluções. Certamente a espécie desejada, mas não a única possível (e a história tem diversos exemplos a apresentar).
A evolução na Ética é o que me interessa agora. Embora nem todos concordem, está bem estabelecido atualmente que todos os seres humanos são possuidores de uma dignidade que lhes garante diretos inatos à vida, à liberdade, à autodeterminação e à felicidade de forma igualitária. São os chamados direitos humanos. Mas não foi sempre assim. Se ainda hoje se discute se a orientação sexual é um direito humano, até pouco tempo atrás sequer se considerava a igualdade dos gêneros como direito humano. E faz pouco mais que algumas décadas que a maioria dos países do mundo reconheceram a escravidão como uma agressão aos direitos humanos. Também não precisamos voltar muitas décadas para lermos escritos filosoficos, políticos ou religiosos negando direitos a não-brancos ou a judeus simplesmente por não os considerar humanos. Voltemos mais ainda, por volta de um ou dois milênios, e encontraremos leis e tradições onde a única pessoa que detinha poderes e direitos era o chefe de família, de forma que nenhum outro integrante do clã sob seu poder dispunha livremente de seu corpo, seus bens e sua vida. Neste caso, podemos afirmar que a Ética sofreu, de modo geral e em média, uma evolução para melhor através da história.E para onde essa "boa" evolução da história tem nos levado?
O direito inalienável ao corpo e à liberdade era sequer cogitado em tempos passados, quando pessoas pagavam com escravidão suas dívidas e isso era considerado justo. O direito inviolável à vida ainda é discutido atualmente, mas grande parte dos países já concordam que ninguém, nem o Estado, deve ter poder sobre a vida do ser humano. Mas até poucos séculos a pena de morte não sofria objeções significativas, muito menos por parte da Igreja. E o que está por trás de toda essa evolução é o crescente reconhecimento de que o outro, aquele que não é o próprio observador, lhe é semelhante na humanidade e, mais importante, na consciência. Em outras palavras, o que desagrada, causa dor ou dá prazer ao observador provoca as mesmas sensações no outro, e por isso todos devem ser iguais em direitos e obrigações. São direitos universais dos humanos.
24 outubro 2012
Criacionismo x Evolucionismo: O problema não é "como", mas "Quem".
São os próprios autores, os pesquisadores Rogério F. de Souza, Sílvia Ponzoni, Cássia Thaïs B. V. Zaia e Dimas A. M. Zaia, que apontam o caminho para a resposta ao apresentarem pesquisas que indicam que a aceitação ou rejeição das teorias para a origem do Universo, da vida e da evolução biológica estão relacionadas com o grau de instrução dos pais, renda familiar, orientação religiosa e compreensão da metodologia científica.
04 abril 2012
Sexo com Crianças: STJ não vê estupro nisso.
Leia o resumo da notícia no Estadão, mas a decisão pode ser resumida assim: se um adulto tiver sexo com um menor de 14 anos e este não tiver "experiência sexual" é estupro. Mas se esse menor já tiver essa experiência, se for uma criança prostituída, não há estupro e a lei perde seu efeito. Por trás disso está a opinião de que para se obter sexo de uma criança prostituída não é necessário se recorrer à violência, como se a própria exploração sexual infantil já não fosse em si uma violência.
Essa decisão é absurda por dois motivos: a) o ordenamento jurídico nacional define taxativamente o menor de 14 anos como absolutamente incapaz, o que vale dizer que nada pode compensar sua incapacidade, nem mesmo a experiência (se não, como traduzir o termo "absolutamente"?); b) a lei que equipara o ato sexual com menor incapaz ao estupro, independente de consentimento, tem a óbvia intensão de proteger a criança mesmo, e principalmente, quando se alegue que a criança consentiu (ora bolas, se ela é absolutamente incapaz, como um consentimento dessa criança poderia surtir efeitos jurídicos?).
Mas essa decisão não é só absurda. É preconceituosa. Ela esconde a opinião segundo a qual quem vive da prostituição não tem direto à proteção da lei, como se somente "pessoas de bem" (ou, para lembrar termo que há bem pouco tempo ainda se usava no Código Penal, somente "mulheres honestas") pudessem ser vítimas do crime de estupro.
Ora, ser prostituta, ou prostituto, ou mesmo ser o que alguns chamam de "promiscuo", não significa estar absolutamente à disposição de qualquer um, de qualquer forma, a qualquer hora. Pelo contrário. Quem se prostitui, ou quem oferece sexo a qualquer pretexto, também tem sua individualidade, suas vontades, seus sonhos, seus gostos, seus limites, suas exigências como qualquer outro ser humano. Não quer transar a qualquer hora, com qualquer um ou de qualquer jeito, pois também tem suas regras particulares. Portanto, existe sim o estupro de prostitutas (lembram-se daquele célebre filme da Judie Foster, "A Acusada", onde uma garota estuprada passa de vítima a acusada por ter "provocado o estupro"?).
Com efeito, o que diferencia o estupro da atividade profissional de uma prostituta adulta é o consentimento (e, claro, a ausência de violência). Se ela aceita a proposta de trabalho estamos falando de prostituição. Se ela não aceita, ou, se depois de ter aceitado, ela começa a ser violada em suas regras, estamos falando de estupro. Mas, e no caso da criança prostituída? Como ela pode consentir algo se ela é juridicamente incapaz? Foi para dar resposta a essa pergunta que a lei definiu: sexo com menores de 14 anos é sempre estupro. Mas parece que não é assim que nossos excelentíssimos magistrados pensam!
Então ficou assim: se alguém transar com uma "criança honesta", ou uma "criança de bem" (aquela que faz você lembrar seu próprio filho) é estupro. Cadeia no desgraçado! Mas se alguém transar com uma "criança prostituta", aquela que mostra na cara o sofrimento de uma vida pobre, que desde cedo foi violada por seus pais ou responsáveis e que entrou na "profissão", não por sonho, mas por necessidade (ou pela imposição de um adulto que a explora) e que em nada se parece com o seu filho, então não é estupro. "Alivia pra esse cidadão", que só queria um pouco de sexo e que pagou por isso. Esse cidadão que, afinal de contas, poderia se parecer com... Qualquer outro "cidadão de bem" de classe média!
12 dezembro 2011
A luta contra o racismo depende de nossa indignação.
Nem injustiça, nem racismo: o mundo é assim
Ester é funcionária num colégio e foi repreendida por não alisar o cabelo e por não esconder seu "quadril largo". Na opinião do colégio isso a torna inadequada para receber o público. Ester se sentiu ultrajada por ser repreendida por características próprias e naturais de sua etnia. Ester é negra.
Para justificar que o "mundo é assim" o autor do blog usou o exemplo de um jornalista que teve sua matéria cortada porque a gravou usando jeans e tênis. Deu mais exemplos: médicos usam branco e advogados usam gravata. Pergunto: o que isso tudo tem a ver com características do corpo? Não nascemos com jeans, o escolhemos. Mas quem escolhe suas características físicas como textura de cabelo e tamanho de quadril?
Algumas linhas antes o autor já tinha argumentado que não haveria problema nenhum no fato da funcionária ser negra desde que se adequasse ao padrão estético da empresa o que, no caso em foco, significaria diminuir seu quadril e alisar o cabelo. Ou seja, seria perfeita para a função de recepção desde que fosse uma negra sem características de negra, mudando coisas com as quais ela nasceu.
E o autor do blog ainda deu o exemplo das recepcionistas em lojas e academias. Quando uma academia contrata recepcionistas com corpo atlético está tentando passar ao cliente imagem de sucesso no controle de peso. Isso é altamente questionável, pois não entendo porque uma pessoa mais gorda não poderia receber bem os clientes de uma academia. Mas entendo o que se tenta dizer ao cliente: "venha ser magra como eu". Quando uma loja fina de shopping contrata garotas, nas palavras do autor, "magras e elegantes" também está, de forma questionável, tentando passar ao cliente a mensagem que diz: "venha ser elegante como eu". E o caso da Ester? Como podemos entender? Por acaso ela não serve para recepcionar pais de alunos do colégio pois seus quadris e seu cabelo (e, quem sabe, sua etnia) não são adequados para passar a mensagem "venha ser inteligente e bem sucedido na vida como eu"? Se isso não é racismo então não sei mais o que é...
Sim, o mundo é assim mesmo. Cheio de pessoas que julgam e estigmatizam outros somente por terem "cometido o pecado" de não serem iguais a eles. E o que vamos fazer a respeito? Deixar passar somente porque as coisas "são assim"? E quem disse que as coisas têm que ser assim?
Lamento profundamente que um jornalista se preste a usar sua profissão para defender o indefensável e justificar o injustificável. Qualquer um é capaz de preceber que os padrões de beleza são convenções sociais, que não existe o certo ou errado para além da cultura. Padrões de beleza mudam ao longo da história e assim deve ser. Nem sempre médicos usaram branco, nem sempre advogados usaram gravata, mas sempre existiu a discriminação e o racismo que define o semelhante como adequado e o diferente ou estrangeiro como inadequado.
Padrões de beleza são impostos por classes formadoras de opinião e, na nossa sociedade de consumo, também moldados pelos interesses de empresas e agências de propaganda. Ou seja, "o mundo é assim" porque alguns ganham muito com o "enquadramento" de outros. Mas o mundo pode ser outro e isso depende de nós.
DEPENDE DE NOSSA INDIGNAÇÃO!
19 setembro 2011
Melancolia 1
A referência ao filme Solaris é clara e o diretor nos convida a pensar no significado da vida que levamos.
Quaero escrever mais sobre o filme, sobretudo relacionando com outros filmes, mas vou ter que deixar para o próximo post...
Assistam.
12 abril 2011
Crime, insanidade e política
E é essa mesma a palavra a usar para um assassino daqueles: insano. Essa palavra não diminui em nada a gravidade do ato ou a responsabilidade do criminoso, mas explica bem o que leva alguém a passar por cima de moral, amor, compaixão, civilidade e fé em algum Deus supremo para tirar de forma tão cruel a vida de crianças inocentes. Sou pai e me sinto profundamente comovido com os pais que perderam seus filhos.
Mas agora vem de novo o Ministério da Justiça falar em campanha de desarmamento voluntário e maiores restrições ao porte de armas. Não que eu seja a favor que o cidadão ande armado, mas porque vejo nisso um oportunismo revoltante. Alguém acha que se estivéssemos no meio de uma grande campanha de desarmamento voluntário aquele assassino louco teria entregado suas armas não registradas e desistido de seu plano insano? Alguém acredita que o assassino comprou suas armas numa loja regular e as registrou? Ele tinha porte de arma? De onde vieram suas armas: do comércio regular ou do contrabando?
Amigos, não existem soluções fáceis para problemas sociais difíceis! Podemos até discutir maiores restrições ao porte de armas, mas o que precisamos discutir neste caso é o contrabando e o crime organizado. É aqui que está o problema a ser combatido.
E, é claro, enquanto discutimos esse importante problema, não percamos de foco o verdadeiro motivo pelo qual o governo levantou esse debate de desarmamento (sabendo que seria polêmico): a apresentação, pela Polícia Federal, do relatório das investigações que provaram que o Mensalão existiu e que não foi só caixa dois. Aqui está o verdadeiro debate polêmico que o governo não quer discutir.
10 abril 2011
Língua como crachá ideológico
Notaram o detalhe?
Antes, para ser petista, ou da esquerda mais radical em geral, "tinha" que se usar barba. Isso era um problema, pois alguns companheiros eventualmente poderiam não gostar da moda e aliados políticos de ocasião, muito menos. Sem falar no viés sexista da moda, visto que só homens poderiam ter barba!
Mas agora os "tempos modernos" trouxeram uma nova forma de se marcar a posição política. Democrático (ambos os sexos podem usar), relativamente discreto, aparentemente erudito e inequivocamente ideológico, o "crachá linguístico" da novilíngua do Planalto cai bem, tanto em companheiros da esquerda mais radical, quanto nos aliados de plantão, como os políticos de centro, travestidos de esquerda, no PMDB: a expressão "presidenta".
Nota final: Pode ser que alguns que leiam meu blog sejam adeptos do termo "presidenta". Dentre estes, para os que trabalham na área de notícias e forem homens, peço desculpas por os ter chamado de "jornalistas", termo obviamente inadequado para um homem, e corrijo para "jornalistos".
15 fevereiro 2011
A Novilíngua do Palácio do Planalto
Marqueteira porque é uma forma de destacar que ela é a primeira mulher a ocupar a presidência da República. Não que isso seja inadequado, pois acho incrível e motivo de orgulho para o povo brasileiro ter uma mulher como presidente. O problema está na forma com que "propagandeia" isso, bem ao estilo do "nunca antes na história deste País".
Ideológica, porque, como na Novilingua do livro de George Orwell, 1984, é uma modificação artificial e deliberada da lingua com o objetivo de criar uma situação psicológica no ouvinte e no falador: a sensação de que somente um partido de esquerda, em especial o PT, poderia ter levado à presidência uma mulher. Que somente por meio do PT temos uma "presidenta".
Se o Palácio do Planalto está tão empenhado em valorizar o feminino e o distinguir do masculino, porque não inclui em seu projeto da Novilingua Tupiniquim tantos outros termos terminados em "e" que, em nossa agora desvelada ignorância, passam a ser vistos como um masculino disfarçado de neutro para dominar a auto-estima feminina? Por que não falar: "Nossa presidenta ficou muito contenta em sua visita" ou "A influenta presidenta Dilma é inteligenta"?
Por outro lado, muitos outros homens podem estar se sentindo esquecidos pela presidente. Podem querer que a Novilingua da Dilma preste mais atenção também aos termos que colocam em dúvida sua masculinidade. Estão cansados de serem femininamente chamados de dentistas, especialistas, motoristas, etc. Exigem que a Novilingua, em seu esforço de destacar o feminino do masculino (de criar a diferença para reafirmar a igualdade), aprove também que se diga "dentistos", "especialistos" e "motoristos".
Sei que muita gente está achando que estou me incomodando com detalhes bobos, que essa atitude é insignificante, mas destaco que é nos pequenos detalhes que conhecemos as pessoas e seus pensamentos. Deliberadamente alterar a forma com que se fala o idioma para dar conta de objetivos ideológicos e de propaganda é uma mostra do que se está disposto a fazer em nome de um projeto. Tipo... chamar de "caixa dois" o que, na verdade, foi o maior projeto de financiamento de suborno no Congresso Brasileiro, como "nunca antes na história desse Pais". Aliás, dertalhe: todos os envolvidos no mensalão (que a Novilingua do PT chamou de inocente "caixa dois") estão reabilitados no atual governo.
Mas o triste é que, com tanta corrupção em Brasília, o povo está mais preocupado em observar um punhado de desconhecidos numa casa fechada, que em observar o que se passa nos bastidores do Palácio do Planalto. Estamos mais interessados em eliminar "fulana(o)" daquela casa do que em expurgar da política quem rouba nosso dinhero e faz chacota de nossa inteligência. Se o Palácio do Planalto tem o seu Novilíngua, porque não também implementar outra idéia do livro 1984 de George Orwell que tanto sucesso faz na televisão: o Big Brother? Adoraia assistir o dia inteiro o que se passa naqueles gabinetes...
05 fevereiro 2011
Explicando Bauman
As citações que postei do livro de Zygmunt Bauman não descrevem a forma como ele vê o mundo contemporâneo: ele está falando do Modernismo, do mundo nos séculos XIX e início de XX. Zygmunt Bauman é sociólogo do pós-modernismo.
Lutamos para não termos que lutar mais
Zygmunt Bauman in Vida a Crédito, pg. 69, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 2010



